quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Desde que o li, apaixonei-me pelo modo como está escrito, se alguem não concordar, é favor comunicar!!!!

Sim é longo..... Mas compensa!!

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"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".

O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente.

O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Miguel Esteves Cardoso, in Expresso

13 comentários:

Minhoca disse...

É longo sim, mas tal como dizes no inicio, vale a pena ler ate ao fim, gostei tanto tanto que já vou na 4ª leitura, dá vontade de dizer tanta coisa que estou ate sem saber o que escrever, acho que no fundo o que fico com vontade de dizer, e utilizando uma frase do texto, é que eu gostava de sentir esse amor, essa paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo.

Esta lindo, foi uma excelente escolha

Uma grande beijoka

Anónimo disse...

Este Elogio Ao Amor de MEC encerra em si mesmo a melhor definição de amor dos últimos tempos.

É escrito de 1 forma bastante simples, mas muito verdadeira =)

Penso que hoje em dia se banaliza demasiado a palavra Amor. Todos amam tudo e qualquer coisa... blah! Amor e Amar são sentimentos profundos não só palavras.

Beijinhos,
Patrícia

Luna disse...

"Quem domina as suas paixões é escravo da razão".

Gostava que "tu" lesses este texto, talvez percebesses que o nosso amor é assim... e quem sabe, quizesses arriscar.

Boa escolha Fênix
Bjokas

Fernanda(Brisa Feliz) disse...

Delicia!! È longo sim mas é uma leitura deliciosa...


Obrigada!!!


Bjos de luz!

mf disse...

Sorri quando li este texto: percebi cada palavra porque já amei assim... A vida matou esse amor, mas eu guardei-o numa gaveta no meu coração. Agora faz parte do mundo dos meus sonhos. Nem sempre foi bom. Nem sempre foi mau. Foi uma loucura. Demasiada loucura para repetir, acho eu. Mas a experiência ninguém me tira... :)

Sadeek disse...

Este MEC dum cabrão é um dos meus idolos....e até para fazer filhas o gajo tem jeito....HAHAHA

ABRAÇOOOOOOOOOOOOOO

Fénix !!! disse...

É um texto brutaal!!

Claro, também está no meu blog... Fénixxx!!!

P.S: Luna, gde frase, adorei!;)

Bj,
Elle.

Marta disse...

Concordo!
:)

Beijos

quase Eu disse...

é lindo e concordo com quase tudo...

observador disse...

O que me impressiona neste texto, para além da sua extrema beleza, é a enorme actualidade, visto ser um texto reeditado. A intemporalidade confere-lhe o carácter de definição...

Catwoman disse...

Gosto muito deste texto :)

Beijinhos

Shadow disse...

Um texto longo de facto, mas que prende do início ao fim.
Uma excelente escolha :)

Bjs,
Shadow

Inês e Mafalda disse...

Este texto é um verdadeiro sucesso...e com todo o mérito ;)

um beijinho para ti...